O inverno chegou no domingo. Para comemorar a data, tirei a bicicleta da garagem e fui pedalar na praia. De boné e óculos escuros segui pela ciclovia em direção ao arpoador. Como não sou propriamente o que pode-se chamar de “uma esportista”, antes de virar a esquina da minha rua atropelei o meu namorado que, sem achar a menor graça, tentava se equilibrar em cima da sua bicicleta e desviar do poste que eu o havia arremessado.Seguimos em frente, ele agora mais cauteloso e dando a devida distância de mim, e eu visivelmente nervosa e me perguntando se não seria mais prudente voltar para casa e pegar o meu cachorro para dar uma volta com toda a segurança e sobre os meus próprios pés. Mas não dei o braço a torcer, ou melhor, os pés a torcer. Combinamos que eu guiaria na frente, sob o argumento que ele viria atrás de mim para me dar proteção e, conforme observei, a uma distância razoável, para se proteger de mim.
O banco da bicicleta, duro demais, incomodava. As mãos e os dedos doíam pela tensão com que eu segurava o guidon. Cada obstáculo ou pino que surgia na minha frente era o suficiente para me desestabilizar emocionalmente pelo medo de perder mais uma vez o controle, cair, me machucar, e o que é pior, machucar alguém que cruzasse o meu caminho.
Na praia, me posicionei obediente e atenta na minha mão ao longo da ciclovia. Só tinha olhos para seguir adiante, como se eu fosse um soldado perfilado numa parada militar, torcendo pela hora de chegar ao Arpoador para esticar as pernas e acabar com toda aquela aventura torturante do meu primeiro dia de inverno.
Num quiosque do Arpoador tomei água de coco, me alonguei, e me pus novamente no caminho de volta. Então me dei conta que a insegurança ficara para trás. E finalmente pude olhar a paisagem e aproveitar o passeio. Avistei adiante o Morro Dois Irmãos e a praia colorida pelas barracas de sol e pelas pessoas que tomavam banho de mar. Na pista fechada para o trânsito de automóveis, adultos, skatistas, crianças, idosos e toda sorte de pedestres ocupavam a avenida aproveitando o dia para caminhar, pegar sol, olhar e sentir a vida. Me senti liberta, independente e novamente senhora de mim e da minha auto-confiança. As mãos já não doíam e nem o banco me incomodava. A bicicleta ficara leve e eu deslizava feliz e tranquila pela ciclovia. Nas esquinas da Rua Bartolomeu Mitre com a Avenida Delfim Moreira, sugeri ao meu namorado tomar um chopp.
Sugestão aceita, seguimos então para o Tio Sam, pedimos chopp acompanhado de caldinho de feijão. O melhor: agora relaxada e totalmente recuperada da indescritível crise de falta de confiança que me acometeu. Um programa simples e que tem a minha cara, tipicamente carioca!

