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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

MARIO QUINTANA – CARTA A UM POETA

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana


quinta-feira, 30 de julho de 2009

CECÍLIA MEIRELES

"A VIDA só é possível
reinventada. "
***
"Jogai para longe os vossos sapatos com a poeira de tanto andar, e os vossos lenços com lágrimas de tanto adeus."

Hoje eu quero falar sobre esta grande e admirável mulher, que tanto nos enriquece com as suas prosas e poesias, e que desde sempre fez parte da minha vida.

O meu primeiro contato com a obra de Cecília Meireles foi aos 9 anos de idade, ao ser presenteada pelo meu pai com os dois volumes de "Quadrante", livros que reuniam crônicas dos nossos melhores poetas e cronistas contemporâneos.

Há uns quatro anos atrás, tive a grata surpresa de encontrar nas estantes da Livraria São José, sebo tradicional da cidade do Rio de Janeiro, os dois exemplares da obra. Não titubeei em comprá-los e presenteá-los aos meus filhos. Afinal, estava diante de um tesouro de duplo valor afetivo para mim, que merecia tal resgate.

Primeiramente por remeter-me aos tempos de menina e a lembrança carinhosa do meu querido pai, que tanta influência teve na minha formação e no meu gosto pela literatura.

Em segundo lugar, por ter sido por intermédio dos mesmos, que fui apresentada a nomes não menos estimáveis e da importância de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Dinah Silveira de Queiroz, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e da própria Cecília Meireles.

CECÍLIA POR CECÍLIA

"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."

Um pouco da biografia de Cecília:

Cecília Meireles nasceu em 1901, no Rio de Janeiro e faleceu em 1964, também no Rio de Janeiro. Foi poeta, professora, jornalista e cronista.

No período de 1919 a 1927, colaborou nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil.

Lecionou na Univerdade do Distrito Federal em 1936 e na Universidade do Texas em 1940.

Trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda no governo de Getúlio Vargas, dirigindo a revista Travel in Brazil (1936).

É considerada por muitos como uma das maiores poetisas da Língua Portuguesa.

Em 1993 foi atribuído o Prémio Camões a Cecília Meireles.

***
LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)

No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

***

O ÚLTIMO ANDAR
.
No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.
.
O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.
.
Todo o céu fica a noite inteira sobre o último andar.
É lá que eu quero morar.
.
Quando faz lua, no terraço fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.
.
Os passarinhos lá se escondem, para ninguém os maltratar:
no último andar.
.
De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar
no último andar.
***
SUGESTÃO
.
Sede assim – qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
.
Flor que se cumpre,
sem pergunta.
.
Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.
.
Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.
.
Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
.
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
.
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
.
Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
.
Não como o resto dos homens.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

CLARICE POR CLARICE

A descoberta do amor
“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”

Temperamento impulsivo
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

Ideal de vida
“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

Escritora, sim; intelectual, não
“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade.
[...] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

A síntese perfeita
“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

A certeza do divino
“Através de meus graves erros — que um dia eu talvez os possa mencionar sem me vangloriar deles — é que cheguei a poder amar. Até esta glorificação: eu amo o Nada. A consciência de minha permanente queda me leva ao amor do Nada. E desta queda é que começo a fazer minha vida. Com pedras ruins levanto o horror, e com horror eu amo. Não sei o que fazer de mim, já nascida, senão isto: Tu, Deus, que eu amo como quem cai no nada.”

Viver e escrever
“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

A importância da maternidade
“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”

Viver plenamente
“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”

Um vislumbre do fim
“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”

Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O PEQUENO BUDA



Osel Hita Torres, nascido na Espanha, aos 4 anos de idade foi apontado como a reencarnação de Thubten Yeshe, um dos lamas mais populares do budismo. Para cumprir o seu destino, foi levado, com a concordância dos pais, para um mosteiro em Dharamsala, no norte da Índia a fim de seguir os ensinamentos do budismo tibetano. Torres tornou-se um pequeno Buda, como são chamados os meninos escolhidos pelos monges para um dia ser investidos de lamas e ocupar os postos superiores da hierarquia religiosa.
Conforme a tradição, a escolha de um pequeno Buda é feita através das intuições de um monge. A regra para reconhecer a pessoa reencarnada é simples: os candidatos são submetidos a um teste para ver se lembram da vida anterior. Isso pressupõe que monges sejam dotados de uma visão mística fora do comum. Torres conta que, no mundo real, o que ocorre são disputas renhidas entre os monges mais influentes para impor seus próprios tulkus, ou seja, mestres reencarnados.
Ocorre que Torres, hoje com 24 anos, resolveu trilhar um caminho oposto ao da iluminação e se tornou um problema para os lamas e seus seguidores. Afastado há 6 anos da vida monástica, deu nas últimas semanas uma série de entrevistas à imprensa européia, explicando as razões do seu gesto. Ao jornal espanhol El mundo declarou: “Eles me arrancaram da minha família e me colocaram num ambiente medieval no qual sofri muito”. À revista Babylon, também da Espanha, disse: “Para mim era como viver uma mentira".
Quando morava no mosteiro, Torres quase não tinha contato com o mundo exterior. Acordava às 6 da manhã e se dedicava a decorar textos sacros durante todo o dia. Após deixar a vida monástica, adotou visual dos jovens da sua idade e saiu em viagem pelo Canadá e pela Suíça. Por fim, ingressou numa faculdade de cinema e recentemente atuou como assistente de produção num documentário sobre Israel.
Hoje, há dois brasileiros reconhecidos como tulkus, que atendem pelos nomes tibetanos de Lama Michel e Segyu Choepel. Ambos optaram pela vida monástica. Michel demonstrou aos 11 anos, pela primeira vez, interesse de morar num mosteiro. Dois anos mais tarde foi reconhecido tulku durante uma viagem à Índia. Já Segyu passou pelo catolicismo. Cursou engenharia antes de estudar budismo tibetano nos Estados Unidos.

Fonte: Revista Veja – 17/06/2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

YVES SAINT LAURENT - VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS

Ontem, eu e Bruna, a minha filha mais nova, almoçamos juntas na cidade e fomos ao Centro Cultural Banco do Brasil visitar a exposição deste grande mestre da alta costura.

A mostra reúne 50 criações originais do estilista, inspiradas na África, Ásia, Espanha, Marrocos, Rússia e Índia e faz parte do calendário oficial do Ano da França no Brasil, organizado pelos governos dos dois países.

Os figurinos são acompanhados por mais de 240 acessórios, como braceletes, brincos, sapatos, chapéus e turbantes. As peças estão distribuídas numa grande sala pintada de cores fortes, reforçando o tom étnico da exposição, e pertencem ao acervo da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent.


Nascido em 1936 em Orã, na Argélia, Yves Saint-Laurent começou a trabalhar com Christian Dior com apenas 17 anos.

Em 1961, se juntou a Pierre Bergé para abrir sua própria empresa. Em 1966, criou o primeiro smoking feminino, promovendo um novo papel da mulher na sociedade. Foi o primeiro a desenvolver uma linha prêt-à-porter de alta costura.
Em 40 anos de carreira, desenhou mais de 300 modelos.
Faleceu em Paris, no dia 1 de julho de 2008, aos 72 anos.

A exposição é aberta à visitação pública de terça a domingo e com data para terminar em 19 de julho de 2009. O Centro Cultural Banco do Brasil fica localizado na cidade do Rio de Janeiro, na Rua Primeiro de Março, 66, no Centro, com entrada gratuita.

Fontes: http://anodafrancanobrasil.cultura.gov.br/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Quem tem medo de Susan Boyle?

Susan Boyle, a escocesa desempregada, após ter se tornado celebridade instantânea na internet, foi internada numa clínica de Londres sofrendo de exaustão, após a derrota inesperada neste domingo no programa de calouros "Britain's Got Talent", no qual era vista como a favorita absoluta para vencer, ficando em segundo lugar.

Boyle, que sofreu falta de oxigênio em seu nascimento, o que a levou a sofrer danos cerebrais leves, não suportou a pressão e o assédio da mídia, causando-lhe um "colapso emocional", segundo informação do tablóide The Sun.

Susan Boyle, que só queria ser alguém e mostrar que também tem talento, não merecia que lhe tirassem a paz.

Fontes: Reuters Brasil

sábado, 16 de maio de 2009

"A vida é um demorado Adeus"


Ontem fui para o trabalho lendo na Revista Bravo deste mês de maio uma reportagem assinada por Armando Antenore sobre Fernanda Montenegro. A matéria é o resultado de uma conversa de quatro horas com a atriz que, às vésperas de completar 80 anos, fala da sua mais recente peça, com data para ser apresentada em São Paulo a partir do dia 20 de maio.

A peça intitulada "Viver sem Tempos Mortos" é um monólogo sobre a filósofa e escritora Simone de Beauvoir (1908-1986), ícone do feminismo e parceira de outro célebre filósofo, o existencialista Jean-Paul Sartre.

Com uma camisa social branca e uma calça preta, a atriz senta-se numa cadeira também preta, único objeto em cena, e permanece lá durante toda a apresentação sob um persistente foco de luz.

... e não precisa de nada mais quando se trata de Fernanda!

No link abaixo trecho da entrevista da atriz na Revista Bravo.

http://bravonline.abril.com.br/conteudo/multimidia/entrevista-fernanda-montenegro-468643.shtml

Vale a pena conferir e ler a entrevista no site da revista. Ir ao teatro ver Fernanda Montenegro é sempre garantia de estar diante de um espetáculo da maior qualidade e, ainda, resgatar o orgulho de ser brasileiro pelo fato de termos em Fernanda Montenegro, sem sombras de dúvidas, uma das grandes e melhores atrizes dos tempos atuais.

Uma curiosidade:

Já não lembro exatamente o ano, mas no fim da década de 70 ou começo de 80, fui com um grupo de amigos assistir no Teatro Tablado uma peça de teatro amador em que Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, encenava "Hoje é Dia de Rock". Terminada a apresentação, fui convidada por amigos comuns meus e da Fernanda Torres para uma "social" em sua casa. Até hoje tenho gravado na memória a imagem bonita do casal Fernanda Montenegro/Fernando Torres nos recebendo no Bairro do Jardim Botânico, onde moravam. E lembro ainda do quanto me chamou atenção a presença marcante e cheia de personalidade da atriz, que vestia uma saia longa com uma blusa cacharel preta. Fernanda, que estava simplesmente à vontade em sua casa, esbanjava elegância e estilo ao lado de Fernando, marido e companheiro da vida toda!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

SOBRE EVA CASSIDY

Há tempos atrás descobri a voz da cantora e intérprete Eva Cassidy, nascida no ano de 1963, em Maryland, nos Estados Unidos, e falecida precocemente, vítima de câncer, em 1996.

Cassidy iniciou sua carreira profissional, cantando e tocando violão na banda Easy Street, que se apresentava em casamentos, festas corporativas, bares com música ao vivo, executando vários estilos musicais, sem conseguir em vida um contrato com gravadoras. O principal obstáculo foi sempre sua recusa em ser enquadrada em um gênero musical específico.

Em janeiro de 1996, Cassidy gravou seu primeiro álbum solo - Live at Blues Alley. Em julho do mesmo ano, Eva foi diagnosticada com melanoma, já com metástases. Sua saúde piorou rapidamente e ela morreu em novembro, com apenas 33 anos de idade.

Mas a morte não encerrou sua trajetória musical. No começo de 2001, após um trabalho de divulgação da rádio BBC, o álbum Songbird alcançou o 1º lugar em vendagem na Grã-Bretanha. Os álbuns lançados postumamente já venderam mais de 4 milhões de cópias.

Discografia

. The Other Side (1992), com Chuck Brown

. Eva by Heart (1997) - único álbum gravado integramente em estúdio
Live at Blues Alley (1997)

. Songbird (1998) - compilação de álbuns anteriores - 1º lugar em vendagem na Inglaterra em 2001

. Time After Time (2000) - 25º lugar em vendagem na Inglaterra

. No Boundaries (2000)

. Method Actor (2002)

. Imagine (2002) - 1º lugar em vendagem na Inglaterra

. American Tune (2003) - 1º lugar em vendagem na Inglaterra

. Wonderful World (2004) - compilação de faixas de álbuns anteriores - 11º lugar em vendagem na Inglaterra

. Somewhere (2008)

Copiar e colar para ouvir Eva Cassidy os seguintes links:

http://www.youtube.com/watch?v=XSXYu-3r1S8

http://www.youtube.com/watch?v=eUwTdqPkluY

http://www.youtube.com/watch?v=AFFo1pu4q7Q&feature=related